Editorial | Nº 22

Carmem Feijó

Resumo


O entrevistado do volume 22 dos Cadernos do Desenvolvimento é o professor Theotonio dos Santos, que recentemente nos deixou. Na entrevista, ele recuperou passagens de sua longa trajetória de militante de esquerda, que o fez presente em momentos cruciais da luta política em nosso continente, e como intelectual que muito contribuiu para o avanço do pensamento marxista. Com anos passados no exílio, acumulou vasta bagagem intelectual lecionando em universidades estrangeiras e trabalhando para organizações internacionais. Com muita lucidez, a entrevista do professor Theotonio mostra sua capacidade de pensar o “Sistema Mundo”, interpretando a dinâmica capitalista nos mais diversos países a partir da luta de classes pelo poder econômico.

A seção de artigos apresenta seis contribuições. A primeira discute tema relevante, mas pouco debatido, que é a relação entre economia e religião. O artigo desta edição analisa tal relação na China, onde depois de décadas de proibição da religião, atualmente esta ganha incentivo do governo. O segundo artigo é também bastante instigante ao propor estabelecer uma relação entre a economia institucional vebleniana e a economia feminista. Conclui que relações de gênero influenciaram como entender a própria economia através da construção de identidade e hábitos de pensar compartilhados, ponto de argumentação teórica que se aproxima da economia institucional. O terceiro artigo, de caráter empírico, discute o papel do investimento estrangeiro direto no desenvolvimento do Nordeste. Mostra, através de estatísticas descritivas, que do ponto de vista regional a presença do investimento estrangeiro no Nordeste traz alguns ganhos, porém na comparação das empresas estrangeiras no Nordeste com as do Sudeste e em São Paulo, as empresas no Nordeste apresentam indicadores de emprego e remuneração média inferiores, e menor potencial inovador. A quarta contribuição recupera os acontecimentos mais marcantes que geraram a crise financeira internacional de 2008 e como ela afetou a agenda de debate teórico na macroeconomia. Segundo a autora, o paradigma teórico convencional pouco foi alterado, a despeito de medidas de políticas não convencionais amplamente utilizadas para recuperar as economias desenvolvidas após o advento da crise. O quinto artigo discute peculiaridades do processo inflacionário recente no Brasil. Apresenta incialmente o debate monetarista sobre o controle da inflação, ao qual contrapõe a visão heterodoxa. Em seguida os autores apresentam evidências de trabalhos teóricos que apontam que o repasse da pressão de custos, em particular da variação da taxa de câmbio, para os preços é “incompleto”. Este é o caso da economia brasileira, o que torna o processo inflacionário um fenômeno complexo para ser combatido, pois apresenta muitas causas. O sexto artigo trata do uso de metáforas e analogias em discurso econômico, tomando como exemplo os discursos de Mario Henrique Simonsen sobre a inflação brasileira. A autora conclui que a escolha da linguagem pelo professor Simonsen tinha impactos no tipo de políticas de combate à inflação vistas como adequadas.

A seção Desenvolvimento no Mundo Contemporâneo traz artigo do professor Pierre Salama. Ao abordar de maneira crítica o impacto de novas tecnologias sobre o emprego e os salários, com evidências estatísticas sobre mudanças na estrutura produtiva dos países em desenvolvimento e na China, conclui que a origem do desemprego e a causa do aumento das desigualdades dos rendimentos não estão na revolução digital, apesar de alertar que esta pode reforçar tais tendências. Como não se pode deter a evolução tecnológica, o artigo termina por recomendar que seus efeitos sejam controlados.

A primeira resenha deste número, do professor Pierre Salama, é sobre o recente livro lançado pela Palgrave Macmillan da professora Lena Lavinas, The takeover of social policy by financialization. The Brazilian paradox. A segunda resenha é do professor Carlos Antônio Brandão sobre o livro do professor João Antonio de Paula, Instituições de planejamento e de desenvolvimento de Minas Gerais: 55 anos do BDMG, 50 anos do Cedeplar.

Por fim, este número apresenta o obituário do professor Fernando José Cardim de Carvalho, associado do Centro.

Maio de 2018.


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